segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ontem quando falei sobre a escuridão do quarto fingi um incomodo por um mal estar que não tinha nada a ver com a escuridão, nem com o quarto, nem com sua vontade de dormir no escuro. Ontem havia um desassossego tão grande no meu peito que busquei em qualquer coisa que fosse um motivo para o esporro, para o vomito do ego, para o despeijar do acumulo da impaciência e intolerância que está no meu corpo, na alma, na pele.
Vi nos seus olhos o susto. E junto uma interrogação (estávamos brigando por causa da luz apagada ou acessa?! Não, não.. de certo havia mais que isso).
Ontem duas vezes troquei seu nome. Você percebeu e fingiu? Ou não percebeu?
Era óbvio que você sabia que as coisas estavam tendo o fim ali, naquela discussão de escuro e claro. E que no dia seguinte se você não me ligasse, de certo eu também não ligaria... e sem dizer coisa alguma não nos veríamos mais (por dias ao menos); e depois nos reencontraríamos com uma saudade estranha dos nossos corpos; e sentaríamos num café como bons amigos e falaríamos como foi o dia... iriamos juntos pra casa (a minha)... e mataríamos essa saudade que meu corpo encontra no seu, mais que não é dele.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Era de um amor que eu andava dizendo todo esse tempo. Você vê quanto tempo se passou, e como agora não faz mais diferença?!... a cor dos seus olhos escuros, vi de novo, ontem em outro olho. Também vi seu sorriso, sua timidez e como silenciosamente se movimentava. Há ternura em todo seu movimento.

Quis poder tocá-la por um momento... mas fiquei atordoada demais... e quando se levantou pra ir me aproximei e pedi: fica!... e você abriu um belo sorriso e estendeu a mão em partida.

Eu não sabia o seu nome... e fiquei me perguntando quando novamente lhe viria...

Eu deixei o tempo todo passar e não fui ao seu encontro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Você não sabe o que está dizento agora... você nasceu, cresceu, o tempo passou... e você não sabe o que está dizendo agora... você não prestou atenção e nem deu valor ao sentido real das coisas...não sabia sentir. Impossível reconhecer o outro quando não se reconhece a si mesmo... foi uma questão de honra esperar e agora lhe segurar o espelho. Olha pra você! Sigo o meu caminho e espero que não se esqueça desse reflexo. De certo não estarei em outros momentos, tampouco lhe segurarei mais o espelho; mas lembre-se de procurar sempre um espelho quando se esquecer de novo de ti.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Acordava logo cedo e corria a brincar pelo quintal entre as flores. Estava sempre perto dos adultos esperando ouvir algum segredo. E depois os revelava incessantemente ao espelho para decorá-lo e aprende-lo. Era como uma caixinha de palavras guardadas. Um verdadeiro confessionário ambulante em corpo de criança. Alguns até diziam que viam-lhe as asas, mais era a vontade de cada um de crer que de fato era um anjo na terra. Sempre a sorrir e cumprimentar a todos. Deixava escapar sem querer muitas vezes algum raio de luz. E pronto. Já não queriam mais sair de perto dela, deixá-la correr livre que foi pra isso que ela veio a terra.
A menina-anjo esqueceu-se anjo por muito tempo. Mesmo assim não deixou de ser. Continuava a fazer seus milagres, guardar pelos outros, mesmo sem saber por quê. E estes jamais a entenderam anjo. Ate agora estes que ela de fato salvou e protegeu jamais lhe viram anjo, se quer desconfiaram.
Mas os anjos são muitas vezes esquecidos, ou nunca lembrados. Muitas vezes jogados de lado, abandonados... Como podem esquecer um milagre?! Como podem não enxergar uma graça, uma benção?! Pobres mortais aprisionados no óbvio.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ela se escondeu num lugar onde a visão não alcança
onde os ouvidos não ouvem
onde a mão não pode tocar

viaja no finito de si mesma
e é tanto vazio que se perde
cai cansada no centro do seu mundo

pensa em gritar

mais não pode

e se arrasta até achar um suporte... e se levanta, apoiando-se nele,
e ronda mais uma vez por dentro de si mesma
e ainda não percebe sua repedição e teimosia sem sentido

cai de novo cansada no centro
agora mais cansada do que antes
agora quase não sai o grito

e tenta
mais ninguém ouve

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tinha um dom premonitivo de enxergar nos outros suas potencialidades. Era tão intuitiva com o ser humano! Fazia da observação um exercício diário. Mas tinha dificuldade de enxergar quem estivesse muito perto. Era uma menina-anjo se camuflando em mil demônios pela boa guarda do outro. Aprendeu de criança a ser anjo e a se transmutar por qualquer labirinto. Disse-me um dia que sonhava sempre em morte e que tinha medo dos sonhos. Tinha medo que sua própria premonição lhe servisse. Mas com ela nunca funcionara.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

...não há nada tão magnífico do que poder sentir as coisas no seu estado "natural"... digo, eu no meu estado natural e as coisas em seus estados naturais: uma pessoa, um bicho, uma praia, uma fruta tirada do pé...

...minha grande ambição evolutiva é poder alcançar essa visão "pura" da vida e do mundo... poder sentir e ver todas as coisas que estão em volta com sentidos reais... existe um milhão de mistérios numa flor desabrochando...nos passaros voando... no barulho do mar... na sensação de sentir o vento... de observar como as folhas das arvores se movimentam... não há liberdade onde estamos.

e o pior é que a porta da nossa prisão está aberta todo o tempo.