sábado, 26 de dezembro de 2009

Acordava logo cedo e corria a brincar pelo quintal entre as flores. Estava sempre perto dos adultos esperando ouvir algum segredo. E depois os revelava incessantemente ao espelho para decorá-lo e aprende-lo. Era como uma caixinha de palavras guardadas. Um verdadeiro confessionário ambulante em corpo de criança. Alguns até diziam que viam-lhe as asas, mais era a vontade de cada um de crer que de fato era um anjo na terra. Sempre a sorrir e cumprimentar a todos. Deixava escapar sem querer muitas vezes algum raio de luz. E pronto. Já não queriam mais sair de perto dela, deixá-la correr livre que foi pra isso que ela veio a terra.
A menina-anjo esqueceu-se anjo por muito tempo. Mesmo assim não deixou de ser. Continuava a fazer seus milagres, guardar pelos outros, mesmo sem saber por quê. E estes jamais a entenderam anjo. Ate agora estes que ela de fato salvou e protegeu jamais lhe viram anjo, se quer desconfiaram.
Mas os anjos são muitas vezes esquecidos, ou nunca lembrados. Muitas vezes jogados de lado, abandonados... Como podem esquecer um milagre?! Como podem não enxergar uma graça, uma benção?! Pobres mortais aprisionados no óbvio.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ela se escondeu num lugar onde a visão não alcança
onde os ouvidos não ouvem
onde a mão não pode tocar

viaja no finito de si mesma
e é tanto vazio que se perde
cai cansada no centro do seu mundo

pensa em gritar

mais não pode

e se arrasta até achar um suporte... e se levanta, apoiando-se nele,
e ronda mais uma vez por dentro de si mesma
e ainda não percebe sua repedição e teimosia sem sentido

cai de novo cansada no centro
agora mais cansada do que antes
agora quase não sai o grito

e tenta
mais ninguém ouve

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tinha um dom premonitivo de enxergar nos outros suas potencialidades. Era tão intuitiva com o ser humano! Fazia da observação um exercício diário. Mas tinha dificuldade de enxergar quem estivesse muito perto. Era uma menina-anjo se camuflando em mil demônios pela boa guarda do outro. Aprendeu de criança a ser anjo e a se transmutar por qualquer labirinto. Disse-me um dia que sonhava sempre em morte e que tinha medo dos sonhos. Tinha medo que sua própria premonição lhe servisse. Mas com ela nunca funcionara.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

...não há nada tão magnífico do que poder sentir as coisas no seu estado "natural"... digo, eu no meu estado natural e as coisas em seus estados naturais: uma pessoa, um bicho, uma praia, uma fruta tirada do pé...

...minha grande ambição evolutiva é poder alcançar essa visão "pura" da vida e do mundo... poder sentir e ver todas as coisas que estão em volta com sentidos reais... existe um milhão de mistérios numa flor desabrochando...nos passaros voando... no barulho do mar... na sensação de sentir o vento... de observar como as folhas das arvores se movimentam... não há liberdade onde estamos.

e o pior é que a porta da nossa prisão está aberta todo o tempo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tenho sede de dizer e ser o que digo
Fingindo não saber o que sou
Me visto da máscara do medo e sigo

Critico as regras inaceitáveis aos meus sentidos
Mas as digo
Num ensaio sem erros, sem falhas
Preparo o espetáculo da farsa e ainda sou aplaudido
O público fingi também outro entendimento
Distinto do que sinto

Como montado num carrocel colorido
Vejo o mundo
Mas não desço

Preservo meu espaço intimo
Não há negociações justas entre as relações cotidianas
Há um vácuo imedivel entre o que é privativo e o que é público

Nesse tempo em que vivo
Não existem conseqüências.

sábado, 10 de outubro de 2009

Tenho fatos e fotos escondidas nos olhos
Na lente respinga alguma coisa do passado
E enxergo alem desse grau sempre embasado da vida
Vi que tinha de fazer sentido o dinheiro ganho
O tempo perdido

Dois
Pra mim é o suficiente
Tenho ¾ de espaço dentro de mim e fora pra dividir com você
O resto não identifico como meu, como seu, como...

É só a passagem do tempo e o acumulo dos fardos que contam?
Contei que vi cinco flores desabrochando hoje
Sorri e brinquei com meu cachorro bob
Vi dois filmes
Adorei a fotografia
E neste momento não havia embaso e nem questionamentos sobre tempo e dinheiro
Nem sobre perdas
Nem sobre passado

Senti saudade daquela nossa conversa intima
De todas as cores que via nos seus olhos quando podia olhá-los de perto
Acho que encontrei o tempo que havia perdido lá no começo

Não faz falta o dinheiro ganho
Dividi o inteiro de mim com quem agora amo
Duas viagens imaginárias são nossos encontros diários de risos.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Não entendo mais o cabimento das coisas dentro desse universo tão sombrio que sinto em volta
Não há nenhuma recompensa em sorrisos gratos
Não há cura pros 21 anos
Não há momento bom, nem certo para as escolhas erradas
Há sempre um certo arrependimento

Os círculos viciosos são uma praga
Procuro uma saída em algum outro universo
Menos denso que este reconhecido

Perdi o valor das coisas
A remarcação de preço acontece tão rápida...

Amizade – R$ 0,01
Conhecer alguém melhor – R$ 0,01